Author: Betânia Uchôa
•10:49:00

♥ Lenise Formatações e Poesias-Entre ♥


INFÂNCIA

Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.

Cecília Meireles



Author: Betânia Uchôa
•07:09:00


ADOTAREI O AMOR

Adotarei o amor
e o escutarei cantando,
e o beberei como vinho,
e o usarei como vestimenta. 

Na aurora, 
o amor me acordará e
me conduzirá aos prados distantes. 

Ao meio dia,
conduzir-me-á à sombra das árvores 
onde me protegerei do sol como os pássaros. 

Ao entardecer conduzir-me-á ao poente,
onde ouvirei a melodia da natureza 
despedindo-se da luz,
e contemplarei as sombras da quietude 
adejando no espaço. 

À noite,
o amor abraçar-me-á,
e sonharei com os mundos superiores 
onde moram as almas 
dos enamorados e dos poetas. 

Na primavera,
andarei com o amor, lado a lado,
e cantaremos juntos entre as colinas;
e seguiremos as pegadas da vida, 
que são as violetas e as margaridas;
e beberemos a água da chuva, 
acumulada nos poços,
em taças feitas de narciso e lírios. 

No verão,
deitar-me-ei ao lado do amor
sobre camas feitas com feixes de espigas, 
tendo o firmamento por cobertor
e a lua e as estrelas por companheiras. 

No outono,
irei com o amor aos vinhedos
e nos sentaremos no lagar,
e contemplaremos as árvores se despindo
das suas vestimentas douradas
e os bandos de aves migratórias 
voando para as costas do mar. 

No inverno,
sentar-me-ei com o amor diante da lareira
e conversaremos sobre os
acontecimentos dos séculos
e os anais das nações e povos. 

O amor será meu tutor na juventude,
meu apoio na maturidade,
e meu consolo na velhice. 
O amor permanecerá comigo até o fim da vida,
até que a morte chegue,
e a mão de Deus nos reúna de novo.

-Kahlil Gibran-
Author: Betânia Uchôa
•07:01:00
"Lágrima"

Orvalho do sofrer - dentro do peito nasce
e nos olhos em pranto sem querer floresce;
aumenta a pouco e pouco, e cada vez mais cresce...
- e rola finalmente em gotas pela face...

sublime florescer da dor... se ela falasse
diria para o mundo a mais sentida prece,
no entanto, em seu silencio humilde é que enternece
pois guarda na mudez um triste desenlace...

Repentina, ela brota, assim como se fosse
( de um mar que em nosso peito as ondas estugisse)
uma gota que o vento, aos nossos olhos, trouxe...

Nuns olhos de mulher, porém, ainda não disse:
- é a pérola de um mar completamente doce,
de um mar feito de amor... de sonho e de meiguice! 

(J G de Araujo Jorge)


Author: Betânia Uchôa
•06:59:00
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão..
Carlos Drummond de Andrade 
Author: Betânia Uchôa
•06:57:00
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

(Cora Coralina)

Author: Betânia Uchôa
•06:54:00


ESSA LEMBRANÇA QUE NOS VEM
Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbita que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança...mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa,
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! Tão perdida
que nem se possa saber mais de quem!

MÁRIO QUINTANA

Author: Lenara
•09:08:00

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

Cecília Meireles
Author: Lenara
•08:26:00

AS SEM RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


By Roberta
Author: Lenara
•06:55:00
 

Viver é acalentar sonhos e esperanças,
fazendo da fé a nossa inspiração maior.
É buscar nas pequenas coisas,
um grande motivo para ser feliz!

Mário Quintana


Author: Betânia Uchôa
•07:18:00


Chega de Saudade

Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas, se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim

Vinícius de Moraes
Author: Betânia Uchôa
•10:29:00


Alga

Passa a noite calma
O silêncio da brisa...
Acontece-me à alma
Qualquer cousa imprecisa....

Uma porta entreaberta...
Um sorriso em descrença...
A ânsia que não acerta
Com aquilo em que pensa.

Sombra, dúvida, elevo-a
Até quem me suponho,
E a sua voz de névoa
Roça pelo meu sonho...

Fernando Pessoa 
Author: Betânia Uchôa
•10:27:00
Dois e Dois são Quatro
Como dois e dois são quatro 
Sei que a vida vale a pena 
Embora o pão seja caro 
E a liberdade pequena 
Como teus olhos são claros 
E a tua pele, morena 
como é azul o oceano 
E a lagoa, serena 
Como um tempo de alegria 
Por trás do terror me acena 
E a noite carrega o dia 
No seu colo de açucena 
- sei que dois e dois são quatro 
sei que a vida vale a pena 
mesmo que o pão seja caro 
e a liberdade pequena.
Ferreira Gullar
 
Author: Betânia Uchôa
•10:21:00



A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra. Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los. Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de rosas, com Março nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse então e o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno para marés longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.  
Livro do Desassossego - 
Fernando Pessoa
Author: Betânia Uchôa
•08:59:00
Traze-me

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meireles
 
Author: Betânia Uchôa
•08:54:00


Círculo Vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
– “Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

– “Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!”
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– “Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

– “Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?” 

Machado de Assis (1839-1908)
Author: Betânia Uchôa
•08:51:00

Ah! O AMOR

De Almas Sinceras a União Sincera
Nada Há Que Impeça:
- Amor Não é Amor Se Quando
Encontra Obstáculos Se Altera
Ou Se Vacila ao Mínimo Temor.
Amor é Um Marco Eterno,Dominante
Que Encara a Tempestade Com Bravura
É Astro Que Norteia a Vela Errante
Cujo Valor Se Ignora Lá na Altura.
Amor Não Teme o Tempo,Muito Embora
Seu Alfanje Não Poupe a Mocidade
Amor Não Se Transforma de Hora em Hora
Antes Se Afirma Para a Eternidade.
Amor Quando é Amor Não Definha
E Até o Final das Eras Há de Aumentar
Mas Se o Que Eu Digo For Erro
E o Meu Engano For Provado
Então Eu Nunca Terei Escrito
Ou Nunca Ninguém Terá Amado.

Willian Shakespeare -

Author: Betânia Uchôa
•08:48:00





RUAS


Nas ruas da saudade,
passeio, bem devagar.
Sento-me em praças,
revejo lugares,
realidades de mim.
Ouço coisas,vozes,
passos; quando para
trás olho, uma das
ruas viravas.
Quase que te reví.

Roldão Aires


M@ry
Author: Betânia Uchôa
•08:46:00




Epigrama do 
Pássaro

_Precisamos deixar algo para a posteridade_,
disse o 
poeta , contemplando o gari
que recolhia o lixo da cidade.
E o pássaro que 
não deixa nenhum canto
após a morte
e se limita a ser vida no ar 
perene
que habita o instante
em silêncio pousou no ramo de uma 
árvore.

Lêdo Ivo
Author: Betânia Uchôa
•08:39:00

 
eu ontem tive a impressão
que deus
quis falar comigo
não lhe dei ouvidos 


quem sou eu pra falar com
deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus 


Paulo
Leminski 



Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•08:04:00


Inconstância

Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também… nem eu sei quando…

- Florbela Espanca -