Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•12:48:00
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As rosas
Quando à noite desfolho e trinco as rosas É como se prendesse entre os meus dentes Todo o luar das noites transparentes, Todo o fulgor das tardes luminosas, O vento bailador das primaveras, A doçura amarga dos poentes, E a exaltação de todas as esperas. Sophia de Mello Breyner Andresen
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Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•10:08:00
Meu Coração
Eu tenho um coração um século atrasado
ainda vive a sonhar... ainda sonha, a sofrer...
acredita que o mundo é um castelo encantado
e, criança, vive a rir, batendo de prazer...
Eu tenho um coração - um mísero coitado
que um dia há de por fim, o mundo compreender...
- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
que habita no meu peito e enche de sons meu ser...
Quando tudo é matéria e é sombra - ele é uma luz
ainda crê na ilusão, no amor, na fantasia
sabe todos de cor os versos que compus...
Deus pôs-me um coração com certeza enganado:
- e é por isso talvez, que ainda faço poesia
lembrando um sonhador do século passado
J. G. de Araujo Jorge
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•09:55:00

O BEIJA-FLOR
Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.
Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro…
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!
Um dia foi-se e não voltou… Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho…
Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!
(Auta de Souza)

Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•08:22:00
Verão na sala
Com o leque
ela pensa alguma coisa.
Ela pensa o leque e
com o leque se abana.
E com o leque fecha de súbito
o pensamento num estalido,
vazia, sorridente, rígida,
ausente.
O leque distraído
e aberto no peito.
“A vida é mesmo engraçada”,
concorda ela como visita
que é recebida na
sala de visitas. Mas num
alvoroço controlado, eis
que se abana de súbito
com mil asas de pardal.
*** Clarice Lispector ***
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•07:25:00
“Sonetos para amar o amor”
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce e é piedoso:
Quem o contrário diz não seja crido,
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos deuses, odioso.
Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mi mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.
( Luís Vaz de Camões )
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•15:37:00
Soneto das saudades
Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas...
Quiçá,teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos,a emoção que partilhamos...
Nem a distância apaga a chama da paixão.
Guimarães Rosa |
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Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•05:20:00

FLAMBOYANTS
Eu não cantei ainda os flamboyants floridos,
alegres, majestosos, multicores,
que,ao vir da primavera,embevecidos,
policromos, sensuais, adornam-se de flores.
E, enfileirados, vão, floridos e felizes,
balouçando a ramagem espontânea ,
como saudando a rir em rútilos matizes
as amplas avenidas de Goiânia.
E nas quentes manhãs de setembro e de outubro,
quando o vento lhes beija as franças, no alto,
sussuram , musicais, despetalando o rubro
véu de flores vermelhas pelo asfalto.
(Gilberto Mendonça Teles)

Amantes da Poesia
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•07:27:00
Em mim também
Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Tereis notado que outras cousas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.
Mas amastes, sem dúvida ... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.
Quem ama inventa as penas em que vive;
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos somente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.
Olavo Bilac
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•07:34:00
SUSPIRO
Não tenho nada com as pessoas
tenho só contigo, meu Deus.
- Pássaro que pelo ar deslizas,
que pensamentos são os teus?
Minha estrela vai perseguida
e por entre círculos corre.
- Ó pássaros que vais morrendo
saberás que também se morre?
A que dorme vai caminhando,
a outra, desperta e imóvel jaz.
- Aonde te disseram que voasses?
Segue teu rumo e canta em paz.
Cecília Meireles
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•05:55:00
Nasci antes do tempo
Tudo que criei e defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?
Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim
acontecia a alguém:
Fulano nasceu antes do tempo,
Guardei.
Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
Nasci antes do tempo.
Alguém me retrucou
Você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Cora Coralina
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•05:49:00
Segue Teu Destino
Fernando Pessoa
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
De árvores alheias
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios
Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses
Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•05:42:00
Oriente
Manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres)
manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)
manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)
Caio Fernando Abreu
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•08:20:00
O Intenso Brilho
É impossível no mundo
estarmos juntos
ainda que do meu lado adormecesses.
O véu que protege a vida
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão
Adélia Prado
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•12:25:00
A Estrela
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Vi uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
(Manoel Bandeira)
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•07:34:00
VII - Ponho na altiva mente o fixo esforço
Ponho na altiva mente o fixo esforço
Da altura, e à sorte deixo,
E às suas leis, o verso;
Que, quando é alto e régio o pensamento,
Súbdita a frase o busca
E o escravo ritmo o serve.
Ode de Ricardo Reis

Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•15:51:00
VOZES DO MAR
Quando o sol vai caindo sob as águas
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d´epopéias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
...Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!
Florbela Espanca
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•09:32:00

Se as minhas mãos pudessem desfolhar
Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
Garcia Lorca
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•10:32:00

ÊXTASE
Eu estava só perto do rio, numa noite estrelada .
Não havia nuvens nos céus, em oceanos sem véus.
Meus olhos mergulharam mais longe que o mundo real.
E bosques, e montes, e toda a natureza,
Parecia interrogar-se num sussurro confuso
Rio de oceanos, os fogos do céu.
E estrelas d'ouro, legiões infinitas,
Em voz alta, em voz baixa, com mil harmonias,
Dizendo, enquanto inclinavam suas coroas de fogo;
E os rios azuis que nada governa e nunca param,
Dizendo , enquanto a cristas de suas espumas dobravam :
- É o Senhor, o Senhor Deus!
Victor Hugo
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•03:31:00
Nada que sou
Nada que sou me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer cousa que tem pressa
Terá pressa em vão.
Nada que sou me pertence.
Se existo em que me conheço
Qualquer cousa que me vence
Depressa a esqueço.
Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só o que não hei de ter.
Fernando Pessoa
Author: Betânia Uchôa e seu universo in versos
•12:23:00

"Querer"
Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.
PABLO NERUDA